CERTOS JOGADORES DEVIAM SER ETERNOS

por: José Maria de Aquino

O médico Joaquim Grava, grande ortopedista, vai examinar os joelhos do craque Rivaldo, com a esperança de diminuir os problemas que pentacampeão mundial sofre e, assim, prorrogar por mais uns tempos sua fabulosa carreira. Rivaldo tem 43 anos de idade, despediu-se dos campos na sexta-feira, dia 15, marcando o gol no empate (1 a 1) do seu time, Mogi Mirim, contra a Luverdense, pela série B do Brasileirão.
O futebol brasileiro está tão carente de grandes jogadores, craques de verdade, que nos obriga a desejar que um dos que através dos tempos merece assim ser chamado, prorrogue sua vida de atleta, deixando a aposentadoria para mais tarde – mesmo tendo chegado aos 43.
A vida é perfeita. O mundo é perfeito. Nós é que, às vezes, pensando apenas nos nossos próprios interesses – no caso o de amar o futebol bem jogado – fazemos exigências acima do que é normal, o que os olhos tortos enxergam como erro da natureza.  É que, na vida intelectual, quanto mais se vive, mais se aprende e tem a ensinar – o que, diga-se logo, por aqui não é apreciado, ao contrário do que ocorre em  outros países, por isso mais adiantados. Já com os atletas, que precisam não apenas do cérebro, mas também do físico, acontece diferente. Não adianta a cabeça pensar, porque as pernas já não a obedecem.
Rivaldo é um privilegiado, abençoado pelo Deus da bola, podendo, por estranho que possa parecer, bater no peito e dizer que tem esse reconhecimento, mesmo não sendo um marqueteiro. Não tendo usado, providenciado, solicitado ou pago por uma divulgação mais marcante. Para aparecer em manchetes garrafais e mais constantes, merecendo-as ou não. Se bem me faço entender. Rivaldo  joga no time dos que o elogio é maior quando se pergunta por que não, do que quando se indaga por que foi.
Há bons anos, quando trabalhava na Poderosa e pretendi comemorar mais um aniversário de Pelé, imaginei transformar em gols aqueles dois lances marcantes da Copa de 1970, no México. O do chute do meio do campo, pegando todos de surpresa – eu mesmo resmunguei, acho até que o xinguei na hora – mais, ainda, o goleiro Viktor, da Checoslováquia. E o da finta de corpo no Mazurkiewicz, contra o Uruguai. Lembram-se? As duas bolas não entraram e pedi a um editor do Rio para que, usando a nova tecnologia, as fizesse ir para as redes. As edições, muito mal feitas, com cortes e não com o uso da tecnologia, ficaram uma grande porcaria.
E eu, depois, agradeci que assim fosse. É que as bolas não tendo entrado, revelam melhor a genialidade de Pelé. Porque os lances sempre são repetidos, para destacar sua visão, o quanto enxergava mais que todos os outros juntos. Caso contrário, seriam “apenas” mais dois gols dele.
É isso, muitas vezes um lance aparentemente simples, sem tocar na bola, apenas criando chance para um companheiro, é muito mais importante e decisivo do que o simples toque para as redes. Para mim, um lance que nesse sentido coloco ao lado daqueles dois de Pelé, é o da abertura de pernas feita por Rivaldo, contra a Alemanha, na decisão do título de 2002, que deixou, com afeto e carinho, a bola para Ronaldo marcar. Revelou inteligência e absoluta falta de egoismo, tão raro no futebol e na vida.

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